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11 de dez. de 2009

Do fundo do Baú (de novo)

Resolvi dar uma olhada em meu blog antigo para ler algo que eu tivesse escrito há três anos atrás nesta mesma época. E, o que vi, resolvi transcrever agora, por achar deveras interessante. Dei uma resumida na primeira parte porque achei um tanto longa, mas sem que o sentido fosse alterado, é claro.
Aí vai:

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A mulher e o anjo


Ela seguia indiferente por seu caminho. Não havia matizes nas paisagens. Tudo era igual; nem bom, nem mal, nem feliz, nem triste. Até que um dia, caminhando pela praia numa noite escura, alguém muito especial, assim como por encantamento, surgiu em sua frente e iluminou sua noite. Quando seus olhares se cruzaram, estrelas curiosas apareceram todas para testemunhar aquele encontro e a lua surgiu radiante para abençoá-lo. Numa fração de segundos, seu vazio deu lugar a um sentimento jamais esperado, jamais sentido. Ela sabia que algo muito importante em sua vida acabara de acontecer. Daquele momento em diante, não mais ficou só. Era um misto de felicidade, ansiedade e euforia. Noites sem dormir e pensamentos esvoaçantes foram a rotina daquela semana. O encontro foi, inevitavelmente, a realização do sonho de qualquer casal que espera, que ansia, que ama. Os dias que se seguiram foram regados de uma felicidade tamanha, que nem eles acreditavam estar vivendo fora do mundo da fantasia. E, talvez, por não terem acreditado, a verdade veio à tona. Um dia, ele acordou com uma sensação estranha, um misto de tristeza e preocupação. “Cadê a tal felicidade que até ontem me rondava? Cadê o amor que eu sentia?” E dela foi se afastando aos poucos, com muito receio de feri-la. Mas, como todo ser que ama e que se torna um só com a pessoa amada, ela percebeu a diferença nas atitudes dele. Dona de uma sensibilidade a toda prova percebeu que o sonho havia terminado e estava acordando para a árdua realidade. Estava sozinha novamente, mas havia em seu coração um amor tão grande que sentia o ar lhe faltando e sensações assustadoras, antes nunca experimentadas. Não conseguia mais se interessar por nada, nem por ninguém. Não foi mais passear pela praia e passou a dormir com janelas e portas fechadas para não mais enxergar a lua.

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O tempo foi passando e um dia ela conheceu alguém, que surgindo não se sabe de onde, sentou-se com ela na mesa de um bar e, entre uma taça de vinho e outra, contou-lhe uma história: “Era uma vez uma mulher que amava demais seu esposo, mas este adoeceu e a morte o levou. Inconformada e em desespero total, sabia que jamais seria capaz de esquecer seu amado e amar novamente. Tinha certeza de que nunca poderia se recuperar daquela dor e, entregue à depressão e ás lágrimas, chamava por Deus e clamava todos os dias pela sua própria morte. Deus, compadecido, chamou um anjo e ordenou-lhe que, transformando-se em ser humano, descesse à Terra e prestasse ajuda à moribunda. Este assim o fez. Aproximou-se dela e, com todo seu jeito de anjo, não demorou muito para conquistar sua confiança. Passava a maior parte de seu tempo junto a ela, impedindo que a solidão a atormentasse. Ela já não mais sofria, não mais chorava, não mais se lembrava do inferno que fora sua vida até então. Ele, por sua vez, encantava-se cada dia mais pela doçura e pela personalidade daquela mulher. Num determinado momento ela se deu conta de já estar perdidamente apaixonada por ele que, se esquecendo de sua natureza angelical, perdeu-se também nesse amor intenso e marcante que ali nascia. E viveram dias de amor intenso. Foi nesse momento que Deus o chamou de volta, pois sua missão estava encerrada. Todo auxílio fora prestado e ela já não sofria. O anjo, inconformado, disse ao Pai que se ele fosse embora, todo sofrimento voltaria. Foi, então, que Deus lhe respondeu: “Sua missão foi tão somente mostrar a ela que é possível amar novamente. Agora, ela já sabe. Venha, você tem outras missões a cumprir”.
E ele se foi.
A Deus, ninguém desobedece, principalmente, se for um anjo.

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2 de dez. de 2009

Pássaro livre


Era uma vez um pássaro livre que tinha para si todo o céu e todas as matas e os mais límpidos riachos para se banhar. Tinha tudo que desejava e já não tinha medo de voar. Gostava muito de noites de lua e, muitas vezes pelas praias feliz voava, banhando-se de sol durante o dia ou à noite admirando o luar refletido nas águas do mar... Sentia que algo faltava, mas nunca conseguiu decifrar.

Mas, tinha também uma gaiola dourada, cuja porta sem trancas nunca o impedia de sair ou de entrar. Numa dessas noites de luar, ao voltar para sua gaiola, eis que lá se encontrava uma garbosa e sorridente avezinha que, com seu olhar penetrante, conseguiu lhe encantar ...

De tão livre que o pássaro era, naquele dia de sua gaiola fez o sol e à noite, fez o mar... e quando voltou a voar nas noites de lua, a sombra que refletia já não era só sua e a cada dia que passava, mais tarde de sua gaiola saía, pois era lá que mais gostava de ficar.

Era uma vez um pássaro livre...
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22 de dez. de 2008

Este Natal passarei com você...

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Meus queridos, este fim de ano está muito corrido para mim e não tive tempo de preparar um post bacana para o Natal. Resolvi remexer o meu baú e encontrei este conto que escrevi e postei no outro blog, em dezembro de 2006. Sei que a maioria dos que me visitam hoje, ainda não deve tê-lo vistol. Espero que gostem.
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A noite chegava prometendo luzes e muita euforia. O Natal se aproximava; era véspera. Esgueirando-se pelas calçadas de um bairro um tanto suspeito, ela carregava numa das mãos a bolsa apertada ao peito que, arfante, escondia um coração batendo em ritmo descompassado e, na outra, um pedaço de papel amassado, com o fatídico endereço que procurava. Apesar do perigo e da situação inédita, nenhuma dúvida aflorava-lhe à mente. Após pensar e repensar até altas horas da madrugada, teve certeza absoluta de haver tomado a decisão correta. Fora difícil, mas agora não voltaria atrás. Ao avistar o casarão, aproximou-se e tocou a sineta. Uma mulher de meia idade, como se quisesse parecer mais jovem, vestindo roupa extravagante e escondendo–se atrás de uma maquiagem carregada, olhou-a com ar interrogativo, mas ela apressou-se a dizer: “Foi eu quem ligou agora há pouco”. A mulher encantou-se com sua beleza. “Por que uma moça tão fina e elegante procurar-me-ia para tais propósitos?” “Preciso de dinheiro, com urgência, para amanhã”. Notando ansiedade em sua voz e prevendo o bom lucro que aquela lindíssima jovem lhe proporcionaria, apressou-se a encaminhá-la. “Você tem sorte. Um dos nossos melhores clientes chegará em poucos minutos. Se agradá-lo, será bem recompensada.”

Na noite anterior, ela havia recebido a melhor notícia de sua vida, que viera embalada em surpresa total. O coração, aos pulos, iniciara uma dança em cadência desordenada. Sorrira e chorara ao mesmo tempo, tamanha era a emoção. Rodopiara pela sala até cair deitada sobre o roto sofá, onde fechara os olhos e fizera mil planos. Havia pouco tempo para se preparar, mas a ocasião exigia o melhor de si. Já há cinco anos, guardava-se e ansiava por aquele acontecimento. Sua mente criativa contemplou, imediatamente, em todos os detalhes, como deveria ser sua noite seguinte e tudo que deveria providenciar para concretizar o que lhe passava na mente. Faltava-lhe, porém, o principal. Não havia grana para nada. Já há muitos dias corria a cidade, em vão, à procura de um emprego. Vasculhou todos os cantos, gavetas e bolsas, mas o que encontrou foram apenas alguns míseros centavos. Havia tanto a ser preparado e tantas compras a providenciar, inclusive aquele vinho caríssimo do qual ele tanto gostava. Seu amado, aquele para quem se guardara já há tantos anos lhe escrevera, anunciando a volta. Aquele a quem amava com todas as forças de seu ser e a quem houvera dedicado todos os seus sonhos, pensamentos e suspiros nos últimos anos, cumpria finalmente a promessa. Há muito não recebia notícias e agora, acabara de ler a mensagem naquele telegrama: “Volto 24 à noite. Espere-me querida. Este Natal passarei com você”. Nada mais escrevera, além disso, nem ao menos se desta vez viria para ficar ou se a noite seria única. Mas, ela estava convicta: custasse o que custasse, tudo seria perfeito e este seria o melhor Natal e a melhor noite da vida deles, mesmo que no dia seguinte ele se fosse para sempre ...

Sueli Benko

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